Sobre o livro
O fundador do cristianismo disse há dois mil anos: “Deixai vir a mim os pequeninos, porque deles é o reino dos céus.” Mas, nas cidades populosas de todo o mundo, que se diz cristão, como Nova Iorque, Londres, Barcelona, Chicago, Paris, Madrid, Lisboa, Berlim, Buenos Aires, para não citar muitas outras, respondemos ao conselho de Cristo, empurrando as jovens para os prostíbulos.
Uma antiga investigação efetuada pela autoridade governativa de Chicago demonstrou que a maioria das jovens da vida desencaminhada haviam sido vítimas do vício na tenra idade de oito anos. O silêncio dos pais se converteu bruscamente na gritaria enlouquecedora dos prostíbulos.
As mocinhas que comparecem ante os tribunais infantis e que, segundo a lei, ficam sob o amparo das associações protetoras da infância delinquente, não sabem o que estavam fazendo nem aonde pretendiam arrastá-las.
A ilustre benfeitora da humanidade Joana Addams foi uma vez convidada a fazer uma prática familiar às asiladas de uma casa de correção, sustentada por uma sociedade, cujo objetivo era resgatar as jovens que davam os primeiros passos no caminho do vício.
A senhora Addams visitou as dependências da casa e ficou surpreendida de ver que todas as asiladas tinham uma boneca sobre a mesinha de cabeceira ou aos pés da cama. As precoces delinquentes eram bastante meninas para sentir paixão pelo melhor brinquedo da infância feminina!
A senhora Addams julgou mais oportuno deixar de fazer a prática e ficar toda a tarde a brincar às bonecas com as asiladas que lhe perguntaram, com vivíssimo interesse, quantas lhe tinham dado quando era menina e como é que lhes fazia mimos.
Numa cidade, cujo nome se omite por nada influir no caso, havia uma pobre viúva, inábil para o trabalho, cujo único recurso consistia nos pequenos ganhos da filha, menina de nove anos, que vendia jornais, revistas, caixas de fósforos e outras coisas pelos bairros comuns da cidade.
A pequena era um quiosque ambulante. Parecia à mãe que bastavam os poucos anos da menina e a ignorância, que ela supunha, das atividades sexuais, para a protegerem de todos os perigos e, portanto, não fazia reparo em deixá-la andar a vender pelos bares, abrigos e prostíbulos que infestavam o bairro.
O negócio da menina prosperava dia a dia e, todas as noites, ao voltar a casa, depois de ter vendido tudo quanto levava na prateleira, suspensa no pescoço, reconhecia que o produto da venda era cada vez maior.
A mãe não prestou atenção à estranha desproporção que havia entre o preço do custo e o da venda, mas, como um dia surpreendesse a filha a contar, às escondidas, uma porção de moedas, submeteu-a a um interrogatório e descobriu, com espanto, que os seus poucos anos e a sua ignorância lhe tinham servido de estímulo para precipitação no vício, em vez de escudo que a preservasse do mau caminho.
A indefesa criatura não teve, nem era possível que tivesse, forças bastantes para resistir ao ataque combinado das solicitações e carícias das corretoras de prostitutas, em cujos prostíbulos ia realizar parte da sua venda, e aos estímulos internos provocados pela influência do ambiente em que, em todas as horas, exercia a sua atividade.
Ninguém duvida de que o aspecto mais indigno e lamentável do tráfico das brancas é o cruel sacrifício de vítimas infantis, no triste altar do demônio, pelos extorsionários da imoralidade humana.
É impossível compreender um crime que tanto clame aos céus como o de cortar as asas de um anjo, o que é o mesmo que manchar de lama a neve da pureza. “Salvai as crianças e salvareis a nação.” É muito meritório o que se faz em benefício dos velhos, mas o que se lhes faz só aproveita individualmente.
O que se faz em benefício das crianças não aproveita só ao indivíduo, porque, mais tarde, tem utilidade coletiva para a família, e, portanto, para a sociedade.
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