A Saga de Aiubasa: Novos Costumes, Erros Antigos (As Crônicas de Nada)

Por Matheus Rudo Oliveira

Sobre o livro

A Saga de Aiubasa (novos costumes, erros antigos) é uma fábula de ficção especulativa que usa uma ilha improvável como espelho do nosso mundo, para falar, com humor e desconforto na medida certa, sobre comunicação, poder, privacidade, vigilância e o que acontece quando uma sociedade “simples” recebe, de uma vez, as tentações e as fraturas do presente.

Na remota ilha de Aiubasa, perdida no Atlântico Norte, vive uma comunidade isolada, de hábitos próprios e uma cultura singular.

A língua falada do povo é um pidgin rústico, feito de gestos e urros mais do que de frases; ainda assim, há uma contradição fascinante no coração desse lugar: os aiubasos leem e compreendem perfeitamente o inglês escrito.

Essa estranheza não é gratuita, nasce de um passado absurdo e quase poético: décadas antes, missionários americanos sofreram um acidente aéreo perto da ilha, e dos destroços “sobraram” dicionários e aparelhos eletrônicos, incluindo um televisor portátil e um DVD player com materiais educativos, que acabariam deixando marcas profundas naquele povo.

Então, quando a vida segue seu ritmo de mar, pesca e urros cotidianos, o céu decide “presentear” Aiubasa com algo ainda mais improvável: um avião de carga erra as coordenadas e despeja na praia um caixote repleto de aparelhos tecnológicos. Para uma comunidade de apenas 144 pessoas, a chegada de centenas de caixinhas brilhantes não é só uma novidade, mas um evento civilizatório.

A partir daqui, o livro se torna aquela leitura que parece simples na superfície (uma comunidade descobrindo um “objeto mágico”), mas que vai abrindo camadas: o que muda quando a escrita vira a principal forma de se entender?

O que acontece quando a intimidade ganha registro, quando o silêncio vira “mensagem não enviada”, quando a vida comum passa a ser mediada por telas, notificações e grupos?

Em Aiubasa, a tecnologia chega como promessa de união e facilidade, e, ao mesmo tempo, como uma força que reorganiza relações, cria novas hierarquias e expõe o quanto a comunicação pode ser ponte… ou lâmina.

Um detalhe é o tom de “crônica”/relato, como se alguém estivesse documentando o nascimento de novos costumes e o reaparecimento de erros antigos.

A narrativa brinca com a ideia de que uma sociedade pode ser “ingênua” em algumas coisas e sofisticada em outras; e que o choque do novo não se mede só por ferramentas, mas pelo que elas despertam: desejo, medo, comparação, ressentimento, fé, fanatismo, necessidade de controle, vontade de pertencer.

E aí entra uma das marcas mais originais do livro: as notas de rodapé como parte da experiência. O próprio texto recomenda que, na edição digital, o leitor clique nas caixinhas numeradas, porque a leitura “completa” envolve essas notas.

Elas funcionam como um “dicionário vivo” (às vezes didático, às vezes irônico), ampliando o humor, criando ritmo e reforçando um contraste central: um povo de urros que navega o mundo pela escrita. (Se você gosta de livros que conversam com o leitor por baixo da mesa, aqui tem isso.)

Para quem a obra pode bater mais forte: para leitores que gostam de fábulas satíricas, distopias íntimas (aquelas que nascem de decisões pequenas), histórias sobre comunidade e cultura, e narrativas que misturam estranhamento e familiaridade, como se a ilha fosse distante no mapa, mas perigosamente próxima do que a gente vive todos os dias.

No fim, A Saga de Aiubasa é menos sobre um caixote caído do céu e mais sobre aquilo que cai dentro de nós quando o mundo muda: a pressa de aderir, a nostalgia de resistir, o gosto pela novidade, o medo de perder o que sustentava a vida e a pergunta que fica vibrando (como o livro sugere) em forma de urro, notificação ou prece.

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