As Gengivas e a Viagem

Por José Humberto da Silva Henriques

Sobre o livro

Esse romance conta a história da peregrinação de dois carreiros por estrada velha. É uma experiência antiga das criaturas nascidas no Alto Paranaíba e Triângulo Mineiro, quando se ajaezam como romeiros. Isso acontece ali pelo mês de agosto, quando tudo culmina com o dia 15, dia da Santa Milagreira.

É uma peregrinação sofrida, de fé religiosa e contenção de pecados. O avô do romancista, Amâncio, fazia regularmente esse percurso, de Brejo Bonito até a Água Suja, antigo nome da atual Romaria. Mais de 30 léguas de marcha, sempre puxando uma rês.

Era comum que a novilha puxada para ser doada aos pés da Santa fosse rês de alta qualidade e vigor. Novilha bonita, chitada de vermelho. Portanto, o tema é muito comum na obra do romancista. Chega a ser recorrente. Sua família toda era devota da Santa, Abadia da Água Suja.

Esse livro, As Gengivas e a Viagem foi construído inteiramente sobre o pedestal desse costume das romarias.

Conta Humberto Henriques que o seu barbeiro, o Altamiro, o Gordo, no Salão de Barbeiro Dom Fernandes, Rua Vigário Silva, quase esquina com a Segismundo Mendes, contou a ele sobre o âmago desse acontecimento.

Porém, a quantidade de informações era ainda muito miúda e o romancista se propôs a escrever um conto sobre tal revelação. Porém, as personagens eram muito exigentes e pediram mais detalhes e comprometimento com uma conversa tão ampla. Henriques deixou o conto e escreveu o romance.

Esse tipo de exto que o romancista acaba por concluir é denso e real.

Quem já fez uma viagem dessas, a busca da romaria e da estrada de chão, o agrupamento das criaturas que estão interessadas no mesmo percurso, o encontro das caravanas e os pontos de pouso, somente esse que já fez essa aventura poderia traduzir com afeto maior aquilo que no livro é precisado.

Portanto, apesar de ser um livro absolutamente fictício, todos os seus pormenores são captados de uma irrealidade existida, a fusão de seus elementos todos com as personagens que por aqui transitam concluem a banda memorialista desse texto.

Talvez a lembrança maior seja aquela do avô, a puxar a novilha chitada de vermelho. Ao seu lado, sô Carlos Rosário, o Carrinho, dono do efusivo e famoso Bar e Restaurante São Sebastião – aquele que era organizado por Cireneu Estevão – ia a puxar outra novilha de malhas pretas em couro branco.

A dupla gemia nas alturas ali da Macaúba e do Bom Jardim, depois ia repousar lá no Celso Bueno, outro ponto de pouso determinado. O que era necessário, água e espaço livre de serpentes onde estender as mantas para o sono. O dia seguinte seria aquela de uma puxada grande pelas pernas.

De sorte que a viagem é a mesma. O que muda são as personagens. Humberto Henriques traz ao palco desse entrecho toda a grandeza de como eram feitas as verdadeiras e ortodoxas romarias da década de 60. Fiel.

Fidedigno, transporta para esse mundo toda a noção de uma existência cheia de paixões e muitos clamores individuais, isso segundo a expressividade de cada criatura que começa a viagem e quer pôr termo a ela.

As gengivas e a Viagem, livro feito a partir da fala do barbeiro, o Gordo, ´mais uma obra de mestre de Humberto Henriques. De interesse como biografia do romancista, o livro foi concluído em cerva de 3 meses, um pouco mais talvez.

Apenas concluiu o texto todo, Humberto Henriques encadernou um volume depois de imprimir o calhamaço e levou ao Gordo como presente e agradecimento pelas suas palavras cheias de riquezas. Aproveitava a data em que deveria tosar os cabelos e levou ao Gordo o volume encadernado.

O barbeiro olhou aquilo, sorriu e agradeceu. Porém, jamais leu. Disse que tentou, mas não deu para ele. A linguagem ia muito além da navalha e da tesoura. Foi isso que ele mesmo disse.

Percorrem as personagens de As gengivas e a Viagem terras desde os limites de Bambuí até Uberlândia numa época que remonta à década de 1960. O romance conta a história que dura uma semana – apesar de carregar suas quase 600 páginas. O mês escolhido é aquele de agosto, mês

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