Doze dias de outono em Moscou: luzes e sombras da Rússia
Por Fernando Dourado FilhoSobre o livro
Até que ponto o diário de um anônimo pode interessar ao leitor? Pouco, em geral. Se o indivíduo for conhecido – seja no mundo artístico, nos espaços midiáticos ou por pertencer à História, em quaisquer dimensões -, é mais fácil que suas subjetividades e observações ganhem algum relevo.
É o caso de perguntar: como ficamos em Doze Dias de Outono em Moscou? No limbo, é a melhor resposta. O autor é um desconhecido do público da literatura. E é provável que assim permaneça. A capital russa, em contraste, provoca suspiros e calafrios.
Por vezes romântica e arrebatadora, pode também ser hostil. A Praça Vermelha é palco de crimes, fascinação e beleza. Como o anonimato do autor combina com tanta majestade? Isso só o leitor dirá.
Doze dias… descreve a rotina pessoal do autor numa curta temporada na capital do Império. Como é de se esperar, o texto é nu, desprovido de adornos ou retoques.
Convidado por uma prestigiosa universidade para fazer um ciclo de palestras sobre negociações com culturas estrangeiras, Dourado descreve as conversas acadêmicas e mundanas travadas com os anfitriões, algumas delas ambientadas em locais pouco óbvios da metrópole mítica.
Neste livro, ademais da enumeração cronológica de uma agenda quase banal, o leitor encontrará um inventário de sentimentos confusos, das tribulações de alma que então assinalavam a entrada do autor no clube da meia-idade – de que, ainda hoje, ele teme sair precocemente, sem direito a promoção.
Viajante experiente, aqui mais uma vez fica perceptível a diferença entre quem percorre o mundo para fotografar monumentos e quem pensa na própria condição diante deles. Turista viaja para conhecer atrações; o viajante viaja para se conhecer.
Submerso em reflexões nos parques isolados, saboreando a riqueza psicológica dos herdeiros da velha URSS, navegando pelo jogo sinuoso de sombras que permeia a Rússia de ontem e de hoje, o autor não consegue se desvencilhar da melancolia que o acompanha da chegada a Domodedovo até a partida.
Talvez sem querer, esse diário se presta à compreensão da realidade de um país pela impregnação paulatina do entorno, da constatação devastadora de que as pessoas são pequenas e de que a vida é frágil diante do colosso apavorante do autoritarismo… até para os muito poderosos.
Entre suas primeiras viagens ao país, que datam dos tempos da finada URSS, até a era Putin (qual delas, convém perguntar), o relato lírico de Fernando não esconde um amor profundo pelos mistérios do país-continente.
Como bônus à fidelidade do leitor, ele encontrará um epílogo dedicado a um dia de verão em São Petersburgo.
Escritor bissexto, Fernando já publicou pela AzuCo Ukrayina, que resgata suas reminiscências sobre o país e discorre sobre a Guerra de Putin, deflagrada em 2022; Qualquer sensação súbita, um tributo à literatura judaica contemporânea; e O boiadeiro que tentou devolver o Brasil a Portugal, sua favorita.
Interessado por viagens, gastronomia, política, antropologia cultural, linguística, teatro e relações internacionais, Fernando integra o conselho editorial da AzuCo.
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