Sobre o livro
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Trechos do prefácio:
Ao contrário dos teólogos, dos satíricos e dos melancólicos, Spinoza, como filósofo, queria compreender as paixões humanas como partes da natureza, que poderiam, por isso, ser conhecidas por nós. Entretanto, o que é a natureza para ele?
Partimos desta questão no presente estudo, que é apenas um breve comentário sobre o mais importante livro do filósofo holandês, Ética demonstrada segundo a ordem geométrica, concluído em 1675. Nossos comentários procuraram seguir, de certo modo, a ordem das partes que o livro de Spinoza foi dividido.
Na primeira parte do nosso estudo comentamos, basicamente, a exposição da Natureza como causa de si, isto é, uma substância constituída de infinitos atributos.
Por ser causa de si, a substância não pode ser produzida por outra coisa; sua essência envolve a sua existência, que se exprime nos seus infinitos atributos.
Isso concerne à natureza naturante (“Por Deus compreendo um ente absolutamente infinito, isto é, uma substância que consiste de infinitos atributos, cada um dos quais exprime uma essência eterna e infinita”, Ética, 1, Definição 6).
As modificações da substância (corpos, mentes) concernem à natureza naturada, ou seja, são produções necessárias da essência da substância ou de Deus.
Trata-se de Deus como potência absoluta de existir de infinitos modos: tudo que existe está em Deus e Deus está em tudo que existe, razão pela qual a nossa mente pode conhecê-lo por meio de um modo virtuoso de vivermos.
[…]
Na terceira parte, comentamos a produção dos três afetos-paixão primários (desejo, alegria e tristeza) e seus derivados.
Reduzidos às ideias inadequadas da imaginação, são produzidos em nós os afetos que nascem das causas imaginárias, como o amor, o ódio, a esperança, o medo, a inveja, a consideração, a desconsideração, o reconhecimento, a indignação, a gula, a embriaguez, a ira, a vingança, a soberba, a vergonha, o arrependimento e muitos outros.
[…]
Para concluir este prefácio, apenas mais algumas palavras sobre esta nova edição. Alguns leitores da primeira edição nos relataram uma extrema dificuldade para acompanhar a primeira parte do nosso estudo.
A dificuldade é compreensível, pois é uma tentativa de comentar fielmente, de modo sucinto, as ideias mais árduas de todo o spinozismo (substância, atributos e modos), com o cuidado de não banalizarmos a sua base teórica.
Em razão disso, pedimos paciência na leitura da parte inicial, pois, com o avançar da leitura das outras partes, aquilo que é abstrato pode tornar-se, com o tempo, “visível” para a mente do leitor.
Daí o nosso alerta: a palavra “introdução” no título do nosso estudo não pode ser considerada como sinônimo de “facilidade”, mas de “convite ao desconhecido”, “aproximação com calma”, o que, sem dúvida, exige tempo e paciência na leitura.
Por isso, este livro poderia ser denominado “Introdução paciente à filosofia de Spinoza”… Como complemento a este estudo, recomendamos o acesso aos registros em vídeos e áudios de nossas aulas sobre Spinoza, disponibilizados na internet em nosso website.
Nesta nova edição, fizemos apenas alguns pequenos ajustes e correções em determinadas passagens, tendo em vista a busca do rigor filosófico que, no intervalo de treze anos entre a primeira edição (2009) e a segunda edição, se impôs a nós com maior exigência.
Amauri Ferreira, janeiro de 2022
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