À Sombra do Amor

Por LETICIA LOURENÇO

Sobre o livro

CAIO

Eu a vi antes de qualquer outro ver. Antes do sorriso. Antes do trauma. Antes da cicatriz que ela carrega por dentro. Vi Lara como se vê um quadro inacabado, cheio de espaços em branco, mas já belo o suficiente para não ser ignorado. E desde então não consegui mais olhar para outro lugar.

Ela nunca me notou. No começo, era apenas vigilância. Instinto. Proteção. Depois virou necessidade. Passei a ouvir seus passos antes de dormir, a decorar seus horários, suas músicas, suas rotas. E não era loucura, era lógica. Porque o mundo não é seguro.

Homens a observam pelas mesmas ruas que ela cruza sem medo. Homens piores do que eu. E eu sou aquele que vê. Que vigia. que limpa o caminho pra ela passar. Ela não sabe, mas já a salvei mais vezes do que posso contar. Já me sujei por ela. Já sangrei por ela. E ela continua vivendo. Respirando. Rindo.

Como se o perigo não estivesse á espreita. Mas ele está, sempre está. E se for preciso… Se o mundo tentar tocar no que é meu… Eu serei a sombra que engole o mal antes que ele chegue até ela. Porque Lara é minha. Mesmo que não saiba disso. Ainda.

LARA

Começou com um arrepio, um daqueles que não se explica, que não vem do vento, nem do frio. Era presença. Invisível. Silenciosa. Mas presente. No início, achei que fosse paranoia. Minha mente cansada, meus medos antigos voltando para me assombrar. Já estive em lugares escuros demais.

Com homens que sorriam e mentiam ao mesmo tempo. Aprendi a duvidar do toque e da palavra. Mas aquilo era diferente. Não era toque. Era olhar. Um olhar que eu não via, mas sentia. Como se alguém me estudasse nas entrelinhas. Me conhecesse nos silêncios. Me desejasse, mas não como os outros.

Era como se eu fosse uma página que ele lia de longe. Um segredo que ele prometeu guardar. Ou proteger. E por mais que eu tenha lutado contra, por mais que eu tenha tentado correr, evitar, negar. Uma parte de mim não sentia medo. Sentia algo pior. Ou melhor. Curiosidade.

Porque quando você viveu o pior, quando já sentiu mãos que machucam, olhos que invadem, palavras que prendem, você aprende a reconhecer quando o perigo muda de forma. E o que pairava ao meu redor, não queria me quebrar. Queria me guardar. Como uma sombra que não se afasta, mesmo quando o sol nasce.

Agora entendo: Ele sempre esteve lá. Antes do toque. Antes da palavra. Antes do amor. Na sombra. Esperando.

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