Sobre o livro
Quando o Horror se instala em uma cidade não resta muita coisa para os seus habitantes além de loucura e desespero. Cafarnaum é uma cidade pequena, de hábitos velhos e arraigados.
Tem um hospital, um cemitério, uma igreja e uma delegacia, mas não se censure se as pessoas daqui não se conhecerem ou não se frequentarem o suficiente a ponto de puderem sentar-se no Ponto Chique e compartilhar uma cerveja. Os dias aqui passam muito depressa.
É como um flash ou um piscar de olhos diante de um sol tropical. Porém, a noite é longa, e permanece, permanece de tal maneira que às vezes ela vara o dia e escurece o alvorecer cintilante em uma única massa sombria e incômoda.
Os nossos avós contam histórias que fazem estremecer os nossos ossos, histórias que deveriam estar bem longe de qualquer consciência que não sabe lidar muito bem com o desconhecido. Eu entendo. O lugar tem fama de ruim, de infame.
Não parece que a cidade já foi um dos três destinos turísticos mais badalados do estado, isso segundo uma revista importante. O prefeito quer que fique assim e até colocou um outdoor enorme de boas vindas na entrada da cidade no km 14 da 415, uma das duas rodovias estaduais que passam por aqui.
Se me permite, faça o favor de me acompanhar por estas ruas. Elas são estreitas, largas, íngremes ou longas, mas todas têm ótimos passeios. A leste, pode ver o mar jogando contra uma bancada de pedras, logo depois da longa faixa de areia branca e dos lodaçais.
Tenha a bondade de erguer os olhos contra o sol em declínio. Estamos a oeste e a grande casa senhorial que vê empoleirada no topo da mata é a morada da Família Adana. Imponente como o Castelo de Kafka. Eles são uma espécie de benfeitores e mandatários da terra.
Há até uma rua importante com o nome deles. A cerração leitosa que desce da encosta ? Não, não se preocupe. Ela sempre esteve lá e assinala um limite que os habitantes daqui não costumam ultrapassar.
De vez em quando aparece um cadáver todo moído e retorcido entre as velhas ruínas cobertas de musgos do antigo Matadouro Municipal ou em qualquer outro lugar nas imediações da mata, mas os moradores não costumam falar a respeito.
Vinte anos atr Carmem e Lia eram pequenas demais para terem a noção exata do perigo; vinte anos atrás Lia teve o seu encontro definitivo com a floresta. Agora, vinte anos depois, Carmem está de volta para revolver as sombras e auscultar as trevas.
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