Boas maneiras de colher frutos podres
Por Organização Equipe Carreira LiteráriaSobre o livro
Certa vez, a escritora e jornalista Gloria Steinem afirmou: “Eu não gosto de escrever, eu gosto de ter escrito.”
Como bem captou a escritora norte-americana, a dificuldade na jornada do escritor começa já no momento mesmo de realizar aquilo que o torna o que ele é.
Lidar com a tão falada angústia da página em branco, de recortar o vazio com a palavra certa, de dar sentido para o caos através da linguagem verbal, certamente essa não é tarefa para qualquer um.
E apenas pelo simples fato de ter topado esse desafio — e, mais do que isso, pelo fato de ter escolhido esse desafio, dentre tantos possíveis — já está de parabéns cada um dos membros dessa coletânea que agora tenho o prazer de publicar.
Mas esse é só o começo da escolha corajosa e “perigosa”, como talvez diria Guimarães Rosa, de se tornar escritor. Depois de escrever, inicia-se outra batalha: a de encontrar uma editora que queira publicar o seu original.
E, depois desta, outra, possivelmente mais árdua: a de conquistar leitores para o seu livro. Afinal, sem isso, sem estar publicado e, portanto, disponível para que outras pessoas o leiam, um texto não completa a sua vocação maior de comunicar e encontrar o outro.
Pois não é disso que se trata a leitura, e, sobretudo, a literatura: de um encontro verdadeiro com o outro?
Como editora, uma das minhas maiores angústias é não conseguir atender a todos os escritores como eu gostaria. Ler todos os originais, publicar todos os livros, investir o que cada um deles exige para que ganhem o mundo e os seus leitores.
Num país marcado por desigualdades sociais consideráveis, pelos baixos investimentos em educação e cultura, pela predominância massacrante da cultura audiovisual diante da escrita e da leitura, editar livros é uma tarefa especialmente desafiadora.
Do enfrentamento desse desafio, surgiu o Curso de Escrita Criativa, um curso on-line cuja proposta seria auxiliar escritores de todo o Brasil a desenvolverem suas potencialidades como escritor e a trabalharem no seu projeto literário.
Ao final do curso, os alunos teriam ainda o desafio de escrever um conto para ser publicado em uma coletânea.
E o tema proposto aos alunos desta turma não poderia ser mais premente: a intolerância.
Num momento em que líderes e movimentos de extrema direita ganham espaço significativo em diversos países do mundo, ameaçando as democracias; em que o feminicídio e o extermínio de populações negras, gays e trans continuam estampando as páginas dos nossos jornais, cabe ao escritor brigar com a palavra para descrever, com a potência que é própria à literatura, as diferentes manifestações deste que seja talvez o maior dos males humanos.
O escritor e humanista argentino Carlos Pecotche dizia que “a intolerância fecha os caminhos da compreensão e da sensibilidade”. E não há ninguém melhor do que o artista, através do exercício da empatia que é próprio da ficção, para ajudar a restaurar esses caminhos.
Gostaria de terminar esse prefácio desejando, a cada um desses escritores, que tenham paixão e persistência em suas jornadas. Afinal, escrever não é nada fácil, mas ter escrito, sem dúvida alguma, compensa.
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