Sobre o livro
“Versos, poemas e poesias fazem de “Lembra, Preto?” um reencontro com as rezas, traços e trajetos feitos por tanta gente preta. Como nos disse Sobonfu Somé, “antes de saber para onde vai, é preciso saber quem você é” — e quando a ancestralidade se faz poesia, descreve não apenas uma cultura, mas todo um país.”
Prefácio
“Receber o honroso convite para escrever este texto, foi como ser convidada a voltar para casa. A casa expandida habitada por gerações de meus ancestrais, a casa construída com força, fé, orgulho e convicção de que um dia ela estaria sobre as cabeças daqueles que viriam. Independente de onde estivessem.
Aqui, neste livro que você tem nas mãos, esta casa se fez poesia. E assim, você que se prepara para navegar por estas palavras, também recebe um convite para poder apreciar o que foi feito por tanta gente preta. Mas, principalmente, recebe o nobre convite para conhecer o que essa gente preta fez de si e para si.
Feche os olhos, imagino que seja possível sentir o cheiro das ervas memoráveis que perfumam as palavras aqui contidas e, com um pouco mais de atenção, pode-se até ouvir o burburinho e as palavras dessa gente grandiosa que pavimentou a estrada que percorro. E a estrada que Josué Roupinha Junior também percorre com sua arte.
Eu reconheço minha mãe logo no título, e quase posso ouvi-la, em uma tarde de mormaço, olhando para o rosto de meu irmão e lhe contando uma história daquelas que nos chegam pelas tias avós, pelas primas e pela voz serena de tantas mulheres: “Lembra, Preto?”, uma pergunta que se faz para que jamais sejamos levados a esquecer do que foi feito.
É uma pergunta que se responde com risos e lágrimas, refazendo orgulhosa e dolorosamente um trajeto de luta.
“Lembra?” Diria ela recontando uma história a uma de suas primas, as sagazes mulheres retintas que ousaram avançar e abriram caminhos inimagináveis neste pedaço de mundo que aprendi a chamar de casa. “As Antônio”, diria minha mãe. Aprenderam, ensinaram, escreveram, fizeram música.
Tem traços delas por toda cidade de Valinhos. Que bom!
Porque lembrar é nossa tarefa máxima para sobreviver, continuar e honrar.
E ao lembrar dos traços e trajetos ancestrais de sua terra, o autor te convida a perceber o quanto há de universal nesta história em poesia. Nestas rezas e construções.
E por isso, caros leitores e leitoras, ao aceitar este convite vocês estarão também aceitando olhar ao redor, daí, deste cantinho onde está agora, e o fará a um só fôlego, para que ao final, com o livro pousado sobre o peito, com as mãos espalmadas sobre a capa, se deixe percorrer pela emoção, pelo espanto, e por tudo mais que vier a sentir.
Foi assim comigo. Pois como nos disse Sobonfu Somé, “Antes de saber pra onde vai, é preciso saber quem você é”, e quando a ancestralidade se fez poesia, descreveu não apenas uma cidade, mas todo um país.”
Daniela Rosa é Socióloga, Doula e Educadora Perinatal. Mestre em Sociologia, pela Unicamp, com pesquisa sobre relações étnico raciais. Estudiosa das relações raciais na saúde e saúde da mulher negra. Fundadora e coordenadora do Espaço Sankofa, em Alfenas/MG. Palestrante e membro da Comissão Científica do SIAPARTO. Mãe de Samuel e Davi. Filha de Ondina.
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