A SATISFAÇÃO PESSOAL

Por FELIPE RODRIGUES

Sobre o livro

O traje define o homem. Shakespeare É com o tratamento pessoal de um indivíduo que nós ficamos encantados. Ovidio Não há virtude nem habilidade que possa fazer-nos passar por um cavalheiro, se o nosso vestuário é descuidado ou impróprio. Orison

“O que é que você faz?” perguntou um rico negociante, ao mesmo tempo que o seu olhar investigador examinava detalhadamente a aparência de um rapaz mal vestido e descuidoso, que lhe viera pedir emprego. “Qualquer coisa” foi a resposta. “Faz qualquer servicinho humilde, como, por exemplo, espanar?

“Sim, Senhor.” “Então por que não começa pelo seu chapéu?” O rapaz pôs-se a fazer girar o seu chapéu nas mãos, por sinal bastante sujas, e não respondeu.

“Sabe limpar objetos de couro?” “Ah, nisso eu sou prático.” “Então, como se explica o seu descuido com as suas botinas, que se acham tão sujas?” “Sabe esfregar?”, continuou o negociante. “Sim.” “Então eu vou dar-lhe um servicinho.

Vá até aquela pia, lá nos fundos, e experimente seus préstimos “serviços” nesse colarinho que traz no pescoço, mas não precisa voltar.” O suplicante rodou nos calcanhares e é de esperar que aproveitasse a lição, embora dada com tanta dureza.

Uma roupa velha muitas vezes é mais sinal de necessidade do que de relaxamento, e quando isto sucede deve-se ter pena de quem a veste. No caso presente, porém, tratava-se claramente de relaxamento, e não de pobreza, e isto preveniu o negociante.

De fato, podia ele não ter roupa melhor, mas não havia desculpa para trazer suja a sua roupa branca, enlameados os sapatos, o chapéu cheio de pó e aquela aparência geral de relaxamento. A limpeza é moeda corrente em qualquer praça e todo o rapaz ou moça que dela se descuidar comete um erro grave.

Todos trazem consigo, na sua aparência pessoal, uma carta de recomendação ou de aviso, e que tem mais valor que qualquer atestado escrito de que porventura se ache munido.

“Uma vez ouvi dizer a um homem de negócios,” é o que relata um moderno escritor, “que a melhor secretária que ele tivera, foi escolhida por causa de sua aparência. Em certo dia muito chuvoso, nada menos de trinta moças vieram atender a um seu anúncio. Vinte delas pareciam desanimadas, e mal vestidas.

Cinco vestiam-se com exagero, e vieram de carro.

Quatro, eram moças levianas “descuidadas; precipitadas; imprudentes; irresponsáveis,” de uns quinze anos de idade, e uma vinha vestida de tailleur, com a roupa branca muito bem tratada, botas altas, bom guarda-chuva, e o cabelo penteado de maneira a afrontar “resistir” o vento e a chuva.

Escolheu esta última, sem exigir outra recomendação que não a sua aparência, e descobriu que ela era realmente o que a sua aparência fazia julgar – uma excelente auxiliar, e até conselheira criteriosa.

Pode bem ser que alguma das que compareceram molhadas, desanimadas e fatigadas, desse uma excelente auxiliar, se tivessem tido ocasião de demonstrar a sua capacidade, principalmente depois de alguns dias de trabalho suave e da renovação do vestuário respectivo.

Muita habilitação e mérito real às vezes se perdem na miséria que provém do cansaço, do insucesso e da timidez. Mas o homem de negócios, só muito raramente procura descobrir estas coisas. Ele não tem o dom da vista dupla.

Toma as suas decisões baseado na experiência e nunca numa visão profética, e sabe que na maioria das vezes, uma moça que parece descuidada, é realmente descuidada.

“A consciência de uma perfeita limpeza,” disse Elisabeth Stuart Phelps, “é em si uma fonte de força moral, só inferior à de uma consciência limpa. Um colarinho bem engomado e umas luvas corretas têm levado muita gente através de uma emergência em que uma dobra na roupa teria sido a sua derrota.”

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