Sobre o livro
Mais uma surpresa dentro da obra de Humberto Henriques. Esse livro vai muito além da simples condição de uma explicação para a criação literária. De uma maneira rápida, segundo minha concepção de memórias esparsas, deveria ser comparado a Páramo, de Guimarães Rosa. O conto Páramo.
E se deve ser comprado a esse Páramo de Rosa, seria também jogado à aliteração de Pedro Páramo, de Juan Rulfo. Não se trata de uma comparação de ordem literária em sua apresentação simplória.
Trata-se mais uma vez de considerar a banda etérea desse livro, como se houvesse entre ele e o processo de criação uma dimensão muito difícil de ser explicada com palavras e termos pragmáticos.
Aqui o entrecho é todo elaborado com uma marcha distinta das personagens, sugerindo sempre que estão a dois palmos acima do chão, a dois passos de lugar nenhum e a três passos de um regime de existência anterior.
Portanto, o livro escorrega do esquema e estilo anterior do romancista e entre nessa seara de outra cor. É um livro relativamente pequeno em termos de volume quando comparado aos megaromances que Henriques publicou ao longo dos últimos anos.
Falar de A Última Cotovia do Condado é uma tarefa perigosa e de difícil controle. Obra excêntrica, volumosa, introspectiva, trabalhada com esmero de artífice.
O autor faz questão e manter o fio de uma meada delicadíssima e tudo que acontece no livro, em sua trama, o que envolve a discriminação e a individualidade de cada criatura que caminha por estas páginas é sempre ativado por um perfeccionista abstrato.
Sempre estribado em conceitos como esse, do Páramo, de Rosa. Quando se faz um estudo mais detalhado dessas páginas, o livro precisa ser considerado como um membro desse conjunto de livros cuja trama se passa toda na Europa.
A Europa em seu Leste, região escolhida pelo autor para a ampliação de seus romances. É o caso, por exemplo, de Hajdú e o grande Ensaio sobre o Exílio. O que acontece é exatamente esse epifenômeno de busca de uma identificação sumária do mundo fora dele mesmo.
A esse explicar melhor, a tentativa de ir além da dimensão mais imediata, aquele que faz vigília sobre a superfície da terra. Esses livros se suplantam em si mesmos e parecem ir em busca de uma identificação quântica majoritária.
Por isso, em virtude dessa ideia de leveza e levitação, o olho do autor, um olho latino e muito tropical, deixa Goiás e voa sobre a imensidão de outro universo. Filigrana. Esse livro, A Última Cotovia do Condado, tem como cenário Portugal.
Humberto Henriques, como diz seu próprio patronímico, tem sua ascendência em estirpe portuguesa. Embora uma parte desse sangue seja italiano, o fator ibérico nele fala muito mais alto.
Ou grita do mesmo modo, a ombrear-se com esse mundo complexo que o escritor carrega sobre o dorso, essa busca constante por novas línguas e expressões, o estudo multifacetado de idiomas variados.
Acreditamos que em uma de suas viagens a Portugal, em momentos de certa abstração, Humberto Henriques encontrou a especificação de um mundo que lhe pareceu bastante familiar em muitos sentidos.
A incorporação desse mundo ao estado latente de uma inteligência exemplar, a reiteração da Península Ibérica como complementação de cada ação e passos que s personagens são capazes de efetuar, o engendramento de uma história com personalidade absurda, todos esses fatores somados fazem de A Última Cotovia do Condado um livro de alvitre exemplar.
Diante dessas informações, s sugestão que fica é que um compendio assim deveria ser analisado à parte, sempre entendendo que os outros romances têm suas particularidades inerentes a uma criação numerosa e que teria características diversas.
As descrições em A Última Cotovia do Condado são plurais, dão a impressão de uma vida vivida eternamente nesse país. Um mundo que se abre com constância e alguma latência. A dizer-se de outra modo, os contrapontos e contrassensos nesse livro são inumeráveis.
Personagem está presente ali, vive naquele mundo e o respira, porém, pode es
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