Sobre o livro
” Sempre presente nas histórias literárias como um dos nossos mais importantes escritores realistas da virada do século XIX, Aluísio Azevedo (1857-1913) escrevia em várias direções, apresentando, ao contrário do que a princípio se poderia imaginar, uma produção literária bastante diversificada.
Além das obras que permanecem como marcos do Naturalismo literário — O Mulato (1881), Casa de Pensão (1884), O Cortiço (1890) —, onde hipóteses sociológicas, biológicas ou políticas são desenvolvidas e ilustradas com enorme profusão de detalhes realistas-científicos, Aluísio Azevedo escreveu, dentre outras produções, o romance romântico Uma lágrima de mulher[1] (1879) e romances-folhetins.
Uma lágrima de mulher, seu primeiro romance, insere-se no rol dos romances do autor escritos “ao correr da pena,” satisfazendo a um público ávido por “obras de fingimento,” repletos de aventuras fantasiosas e sentimentais, que lhe asseguravam a sobrevivência econômica.
Aluísio foi um dos raros escritores que conseguiram, ainda que precariamente, viver à custa de sua pena.
Esta situação é denunciada em correspondências, bem como nas crônicas que escreveu: “escrever, tem sido aqui no Rio de Janeiro a minha grilheta, muito pesada e bem pouco lucrativa, do qual livro pulsos e tornozelo sempre que posso.” [2]
Segundo Olavo Bilac (MÉRIEN, 1988: 197), o romance Uma lágrima de mulher, de romanticismo exacerbado, totalmente contrário às teorias naturalistas que Aluísio defendia publicamente no mesmo período[3], foi escrito não em 1879, mas em 1874, antes da primeira viagem do autor ao Rio de Janeiro, e conseqüentemente antes de sua adesão às idéias naturalistas.
O romance teria sido publicado apenas pelo fato de Aluísio passar por algumas dificuldades financeiras, num período em que seu trabalho de pintor e jornalista lhe rendia poucos recursos.
O objetivo era atender as necessidades de divertimento e a expectativa do público que ansiava pela confirmação de arquétipos e valores da sociedade vigente.
Seu açucarado romance inaugural, de filosofia “rousseauista”, apresenta uma visão estereotipada da vida, tem estilo simples e acessível às leitoras ávidas de intrigas e sobressaltos.
Inflacionado de clichês, o romance segue a tradição dos romances-folhetins franceses lançados por Eugène Sue, Ponson du Terrail e Montépin.
Com aspecto melodramático e discurso sentimentalista, o romance funde suas tendências trágicas e sentimentais, evidenciando um fascínio pelas situações dramáticas e apaixonantes. Apela-se ao trágico a fim de acentuar o peso do suspense e da carga emotiva que se pretende passar ao leitor.
O romance, de intriga simples, é recheado de episódios inverossímeis cenas imprevistas e patéticas. Os personagens divididos a priori entre anjos e demônios, heróis e vilões são tipificados, de psicologia maniqueísta. As situações, na sua maioria, e os cenários descritos são teatrais.
Há sempre um ambiente de noite tempestuoso cheio de relâmpagos e trovões, revelando certa atração pelo fantástico, pelo nebuloso.
Reiterando velhas fórmulas repletas de vinganças, lutas, estados febris, acentuados por expressões exageradas, e por uma pontuação expressiva, Uma lágrima de mulher apresenta o que R. Mulinacci (apud FINAZZI-AGRÒ e VECCHIO: 2004) denomina “fagocitação romanesca da forma trágica”.”
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