Corpos que Acusam: testemunhos cartográficos, marcas de violência e o que nos falta na Justiça de Transição

Por Roberta Cunha de Oliveira

Sobre o livro

“Trata-se de uma importante contribuição para o resgate da memória sobre o passado ditatorial dos países do Cone Sul. Memória, essa ideia tão presente em nossas vidas e por vezes tão marginalizada, exercício tão rotineiro e tão despercebido, tão essencial e tão desvalorizado.

O estudo de Roberta é sobretudo um registro de memória. Por meio da prosa poética, tão própria de seus escritos, a autora nos apresenta dados e testemunhos sobre o regime militar, principalmente na Argentina e no Brasil.

Em tempos de debate sobre o passado e contestação de fatos históricos, peças fundamentadas de memória são ainda mais necessárias. Durante seu percurso na graduação e pós-graduação, Roberta realizou visitas de estudo à Argentina.

(…) Nessas visitas, teve contato com lugares de memória e com as pessoas que os nutrem. Descobriu os detalhes da perseguição política e da violência de Estado cometida pelos governos militares. Ouviu histórias de vida, de militância, de defesa de ideais de igualdade, inclusão e dignidade.

Ouviu narrativas das punições a esses ideais, cometidas por funcionários públicos sem que os acontecimentos fossem submetidos a julgamento, antes dos julgamentos ou sem julgamento justo.

Essas narrativas aproximam o texto de Roberta à literatura de testemunho que ela utiliza também como referência ao longo da escrita.

Além das falas dos entrevistados, a autora nos brinda com descrições sensoriais do momento do encontro com as pessoas, a chegada nos locais de memória, as impressões das trocas que aconteceram durante a pesquisa de campo, em um estilo quase jornalístico. “

– da apresentação de Clarissa Dri

“A negação da Ditadura se comunica com a negação da pandemia nos anos de 2020 e 2021 e dos seus efeitos mortais sobre centenas de milhares de pessoas, se comunica com a negação do massacre das pessoas negras e periféricas no país, se comunica com a negação da existência do racismo, da homofobia e da misoginia, com a negação da ciência, da educação e da pesquisa pública e de qualidade.

A negação mal consegue disfarçar os alvos dos seus interesses, que se beneficiam do desprezo pelo sofrimento alheio, e que mais se aproximam do cinismo que da negação pura e simples.

Tal qual o próprio anjo da memória de Benjamin, o texto da Roberta mira os escombros e se concentra nos caídos e nas ruínas produzidas.

No entanto, ao contrário do anjo, que não é deste mundo, a Roberta consegue libertar as suas asas imaginativas, teóricas, militantes, sensíveis às vidas das outras pessoas e sua histórias e narrativas, caminho privilegiado para reacender as chispas da esperança revolucionária.

Sem o reconhecimento público, coletivo, sem a movimentação constante da memória coletiva, não é possível de fato avançar rumo a uma sociedade melhor, ou realizar qualquer revolução que se preze.”

– do prefácio de José Carlos Moreira da Silva Filho

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