Sombras do tempo: Contos

Por David Gonçalves

Sobre o livro

É dado como certo que, na velhice, restam o cão e a bengala como amigos inseparáveis.

Estes contos sobre a velhice e a morte revelam inquietude, sofrimento, desesperanças, ceticismo, ânsia por viver. Mas também são ternos, pessoas que sentem, amam, pensam e agem como nós, imploram por respeito, amor, sexualidade. Narrativas tensas, aparentemente cruéis, mas carregadas de sensibilidade. Um olhar tão abrangente sobre a condição humana que faz o leitor refletir sobre o fim irremediável.

Sejamos flancos: o mundo em que vivemos trata os velhos como párias. A velhice, assunto já abordado pelo autor no romance “Águas de outono”, é dissecada em múltiplas histórias com suas vontades, desejos, limitações e angústias.

Na sociedade, o velho incapaz de suprir suas necessidades representa sempre uma carga: o material humano só interessa quando produz. Depois, é carta fora do baralho. Assim são as personagens destes contos. Uma espécie de refugos.

O leitor poderá dizer: a velhice, hoje, não é comparável à velhice de anos atrás. Com razão: vive-se mais tempo e até mesmo além do desejado. Isto é um conforto ou uma maldição? Bem, cabe a cada um decidir por uma velhice amparada ou corroída pelo ostracismo.

Verdade seja dita: com a velhice, vem o ostracismo, as doenças, as desilusões. A certeza de que todo homem é mortal. Quase nenhum pensa com antecedência na decadência fatal. Nada devia ser mais esperado do que isso. Mas não é assim que acontece. Dizem que é a melhor idade. É mentira deslavada. A sociedade impõe à maioria dos velhos uma vida miserável. Por isso, estes contos são um grito angustiante de revolta.

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