A Casa da Rua 40

Por M. Zuchi

Sobre o livro

Um versículo do Qohélet “Tenho visto tudo o que é feito debaixo do sol; tudo é inútil, é correr atrás de vento” foi a fagulha desta escrita, o ponto de partida para toda a história, que trouxe reflexões profundas e serviu de pano de fundo para todos os diálogos internos que compartilho neste livro.

Cada personagem que ganhou vida em minha imaginação, cada lugar que me levaram a conhecer, funcionaram como “portas” que eu precisava abrir e atravessar dentro da minha cabeça.

A Casa 7 é o ponto de partida para a Terra das Escolhas, um caminho necessário para encontrar o sentido da vida. Busquei ingredientes na minha infância, resgatei aprendizados que observei ao longo do caminho, nos erros, nos traumas, nas alegrias, nas boas e más lembranças, nas conquistas, nos causos descompromissados, e nas conversas fiadas entre amigos.

O livro não fala de tristeza, muito pelo contrário, fala de “se encontrar verdadeiramente com a vida”.

Ele é repleto de surpresas, questionamentos teológicos e existenciais; impasses filosóficos, boas risadas, dúvidas, inseguranças, questionamentos importantes para quem está tentando enxergar beleza na dádiva da vida no meio de tanta distração que a modernidade apresenta, com pitadas de um ingrediente principal o “inacreditável”, que entra em cena neste livro para nos apresentar o óbvio escondido bem perto da gente.

Trata-se de literatura fantástica, pois, nada como ter a oportunidade de criar novos pontos de vista, ou melhor, dar vista a pontos que sempre estiveram lá, com personagens carregados de elementos sobrenaturais, extraordinários e surreais; com perguntas e respostas que surpreendem, por estarem cheias de sabedorias e de dúvidas cotidianas; por serem simples, mas, ricos em cura e em empatia.

Hebel, o vento, que muitas vezes se apresenta em forma de um Tigre azul, é a distração. Foi o primeiro personagem a surgir na minha imaginação; o primeiro entendimento necessário, e o ponto que considero o princípio das minhas dores e da reconciliação comigo mesmo, pois entendi como é fácil nos distrair pelo caminho, por achar que estamos no controle das coisas.

Quem acompanha esta jornada são os guardiões da escolha; personagens que, por sua subjetividade, dão ao texto reflexões profundas, e apresentam perguntas difíceis de se responder, repletas de diálogos generosos e atentos ao cotidiano.

Veremôndo o gigante de coração grande é o caminho, Hebel a distração, Lisa a liberdade, Sr Alvédrio o livre arbítrio, Ápeiros o tempo, Hata (Breu) é o erro e o vilão da história; e Zoé, a rainha que dá sentido à dádiva da vida.

Pelas linhas do livro, Sr Benjamim, Josué e Marmô, guiados pelas mãos do afobado e misterioso Sr Telésforo; passam pela ilha flutuante do Casco em balões de nuvem, pelo vale dos Picuruchinhos, a porta de entrada da terra protegida pela trégua do Campanário, pelas maravilhosas plantações dos Mirescos, o triste vale das estátuas de pedra, pela biblioteca de Nancrala, pela venda verde do sr Roboão, pela abóbada furada, pela terra dos felídios e as rochas cachalote, o assustador mar de redemoinhos de pia, a terra dos Gigas, o salto de água doce e salgada do rio Maracujá, o surpreendente voo com os encouraçados de pistão até as cordilheiras geladas de Shambu e a prisão de Achuria, pela comitiva dos animais de lata e a fundição dos homens Alpaca, pela triste e solitária Vila Morta até chegar ao final da jornada: a Casa do Epílogo.

Por trás de cada porta aberta um aprendizado sobre o sentido da vida: o livro em branco da biblioteca de Nancrala, o coração uníssono de Lótulos o artesão, a caixa de panórama do Mago da Vila Azul, o cinzel de escrever a vida entregue por Adro, a fruta que não se pode apedrejar de Grodes, a luz de estrela de Saraúsa, a linha de corso do pescador, e o velho homem no quarto vazio.

Relíquias para enxergar/perceber a vida pelo caminho.

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