Sobre o livro
O SOL se infiltra pelas cortinas de rede e sombras chinesas brincam caprichosamente no branco. São as folhas das copas das árvores do Quai d’Orleans, que chegam até a metade da janela de Valéria.
O novo ateliê às margens do Sena a deixa deslumbrada, porque não há lugar de onde ela possa pintar melhor.
As cortinas voam levemente na brisa da manhã e os raios do sol esgueiram-se pelas frestas e lambem tudo; o chão, um pedaço de parede branca, a mesa com os pincéis e o ângulo da tela apoiado no cavalete.
A tinta ainda está fresca, ele acabou de dar as últimas pinceladas e agora recuou um pouco para vê-la em perspectiva. A sala envolve a obra que Valéria intui como a melhor que já pintou. Um formigamento a percorre e ela pensa que isso é o mais próximo que se pode chegar da felicidade.
É seu trabalho mais pessoal, o autorretrato em que deixou parte de sua alma, e lhe ocorre que agora é, de certa forma, imortal. A própria pintora contempla a tela e a imagem que vê parece-lhe mais precisa do que a de um espelho. É ela no nu mais autêntico e sincero que já fez.
É ela, com seu cabelo preto curto recentemente cortado em estilo garçon.
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