A mulher ideal

Por Ana Claudia Fonseca

Sobre o livro

Alice é uma dessas almas metódicas, portadoras de pontualidade crônica. Para ela, dar corda no relógio tem o mesmo efeito de quem reza: um alívio para o espírito. Justamente por isso, muitos se viram surpresos quando, aos 43 anos, ela joga para o alto uma carreira bem sucedida como tradutora em São Paulo para mergulhar em um mestrado em Paris, vivendo em uma quitinete mofada e traduzindo romances água com açúcar para pagar as contas.

Para aplacar sua solidão, ela recorre a um site de relacionamentos e conhece Oran. Dois meses depois, estão morando juntos. O convívio é difícil, e as brigas, cada vez mais violentas. Longe dos amigos e da família, em um país cada vez mais fechado aos estrangeiros, Alice descobre ser a vítima perfeita.

Neste thriller psicológico escrito numa linguagem enxuta, ágil e potente, algo raro em livros de estreia, Ana Claudia Fonseca nos conduz mão na mão pelas catacumbas da alma humana e nos mostra que a felicidade e o pesadelo muitas vezes são as duas faces de uma mesma moeda. Impossível chegar à última linha de A mulher ideal sem pensar: “Poderia ter sido comigo”.

André Viana

———— “Desde o episódio na pousada, há duas semanas, ele só a procurava daquela forma bruta. Alice aceitava essa maneira triste de amar, a apatia era mais forte que o orgulho, mas desprezava a própria submissão, o que explicava o seu repentino isolamento.

Não queria ter que compartilhar sua vergonha. Tinham abandonado as sessões de terapia porque Oran acusara falta de tempo, e ela concordara por falta de ânimo. Para escapar da impostura doméstica, pretendera naquela tarde uma crise de enxaqueca.

A ideia era passar o sábado, e talvez o domingo, fechada no quarto escuro até que a segunda-feira chegasse com o horário comercial para libertá-la da prisão voluntária.

A verdade era que a dor que sentia não estava em sua cabeça, mas em algum lugar entre as costelas e o osso esterno, um peso que atrapalhava a respiração e a fazia sorver o ar com dificuldade. Se ao menos conseguisse chorar.

Talvez assim pudesse desanuviar a mente e encontrar a saída do labirinto antes que o monstro a devorasse, mas as lágrimas pareciam tê-la abandonado.” (trecho de A mulher ideal)

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