Sobre o livro
Com a narrativa, subjetiva, intimista, o cenário construído introduz o leitor no mundo de Natalie, que busca sofregamente clarear a identidade de sujeito capaz de designar a si mesmo ao significar o mundo.
A reconstrução da história de vida pela mediação da narração poética e em prosa conduz a uma dimensão temporal tanto de si como da própria ação.
A identidade dos sujeitos se processa no âmbito da semântica da ação e auxilia a aproximação com a pessoa do leitor para interpretar a aliança subjetividade e razão. Seria narrar interpretar-se?
Quando os personagens falam de si mesmos, há um mundo interior projetado na narração, vinculado a uma realidade exterior de sua cultura. O sujeito se designa a si mesmo ante o outro e o mundo através dos signos e significantes traduzidos na narração.
A identidade pessoal dos personagens Natalie, Elend, Schlange, Herrschaft e Kalón é uma problemática envolvida na existência coletiva, reproduzida na via temporal. Existiria uma estrutura da experiência humana capaz de integrar as narrativas históricas e de ficção?
Seriam as vidas humanas mais legíveis e inteligíveis quando interpretadas a partir dos modelos narrativos das intrigas tomadas da ficção? O cárcere de Natalie surpreende ao instigar a reflexão sobre o mesmo e o outro.
Na tríade descrever, narrar, prescrever destaca-se o exercício de constituição do si mesmo e identidade do sujeito submersa na trama existencial.
No cárcere de Natalie a identidade se manifesta em paradoxos múltiplos, a traduzir uma penúria no reconhecimento do si mesmo e ultrapassa o tempo presente em um jogo entre passado, presente e futuro. A vida é enigma, mistério. O lugar da identidade constitui um espaço de aporias, contradições.
Contudo, a vida é também sonho e desejos, cheios de imagens criadas pela subjetividade de cada singularidade, enraizada na cultura do vivido e particularidade do ser. Sonho, enigma, mistério, desejos (in)confessos, alegrias?
Tal como o papel do coro nas tragédias gregas as falas em poemas surpreendem e instigam o leitor a refletir sobre o sentimento do trágico, do mal, da falta, da antinomia bem-mal, do tormento do ser na angústia existencial.
As páginas seguintes convidam o leitor a uma imersão no Cárcere de Natalie para-através de seus personagens-interpretar-se na totalidade paradoxal do si mesmo e da trama espelhada no mundo finito.
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