Travessias no Atlântico Negro: Reflexões sobre Booker T. Washington e Manuel R. Querino
Por Sabrina GledhillSobre o livro
Neste livro, Sabrina Gledhill analisa as trajetórias e táticas antirracialistas de Booker T. Washington (1856/1915) e Manuel Raymundo Querino (1851/1923), dentro do contexto do Atlântico Negro.
Apesar do prestígio que desfrutaram em vida, suas imagens foram dilapidadas após a morte: Washington com a mácula de “comodista” e até “traidor da raça”; e Querino com a imagem de um “humilde professor negro” de parcos poderes intelectuais.
A realidade, como os dois educadores negros que são o enfoque deste trabalho, foi muito mais complexa.
Querino foi uma figura multifacetada: pintor-decorador, artista, abolicionista, jornalista, líder operário, político, professor de desenho industrial e pesquisador, fundador da historiografia da arte baiana, defensor dos terreiros de candomblé, sócio fundador do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, inspiração para Pedro Archanjo (protagonista de Tenda dos Milagres) e o primeiro intelectual afrobrasileiro a destacar a contribuição do africano à civilização brasileira.
Educador, orador e conselheiro de presidentes dos Estados Unidos, Washington nasceu escravo e chegou a ser considerado o “negro mais famoso do mundo”.
Após a Emancipação, trabalhou como zelador para custear seus estudos no Instituto Hampton, fundou o Instituto Normal e Industrial Tuskegee e tornou-se o líder da “nação negra” nos Estados Unidos, tendo como seu maior rival o intelectual negro W.E.B. Du Bois.
Depois de apresentar o contexto em que viveram e traçar as interconexões entre suas realidades, Gledhill analisa suas trajetórias durante a vida e após a morte.
Mostra como Manuel Querino poderia ter acesso a informações detalhadas sobre a vida e obra de Washington décadas antes que sua autobiografia mais conhecida, Up from Slavery, fosse lançada no Brasil, traduzida por Graciliano Ramos.
Paul Gilroy, o idealizador do conceito do Atlântico Negro, usa a metáfora de navios atravessando o oceano. Gledhill mostra que as “travessias” também poderiam ser realizadas por meio de traduções e da telegrafia.
————————— “…além dos seus méritos, [Sabrina Gledhill] é muito corajosa academicamente. Primeiro, pela escolha de dois autores, marcados por vidas e ideias, no mínimo complexas, além de cheias de desafetos, em vida ou na morte.
Segundo, por defender, sem ater-se ao sempre fácil politicamente correto, Manuel R. Querino e, em especial Booker T. Washington. Para mim, isso engrandece o seu trabalho, pois com certeza, será objeto de salutares polêmicas.
Terceiro, por não ater-se às clássicas biografias, preferindo caminhar por aspectos não suficientemente abordados – quando o foram – na bibliografia dos dois personagens”. – Jeferson Bacelar (Prefácio)
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