Sobre o livro
Alzheimer – Assombro e Cura do Cuidador Em 2006 meu pai foi diagnosticado com Alzheimer e em 2013 foi a vez da minha mãe apresentar os sintomas dessa doença cruel, que adoece toda a família, mas principalmente o cuidador familiar.
Em 2017 lancei Alzheimer diário do esquecimento, o primeiro livro da trilogia que me propus a escrever sobre a experiência visceral e assustadora, de uma filha que cuidou do pai e mãe, portadores da Doença de Alzheimer.
Em 2018 lancei o segundo livro da trilogia – Alzheimer – Recolhendo os Pedaços – para expor as feridas e medos do cuidador familiar e contar a experiência do Alzheimer depois da morte do paciente.
Aos poucos fui aprendendo com todos que entraram no meu mundo, amigos dos grupos, profissionais, parceiros… todos que me estenderam a mão, ou seguraram na minha mão quando eu já podia estender e oferecer ajuda.
Em 2020 lancei o último livro dessa trilogia – Alzheimer – Assombro e Cura do Cuidador – na tentativa de responder a apenas uma questão – “e agora?”.
Descobri que o Universo não faz um minuto de silêncio pela nossa dor e eu aprendi que não poderia sobreviver a tudo isso sozinha, e contei do caminho que trilhei para amenizar a doença pós Alzheimer; quem sabe o meu remédio possa servir para outras pessoas que tem feridas iguais.
Ainda não é cura, mas um jeito novo e leve de carregar um fardo que era quase insuportável.
O Assombro do Cuidador “Ó, vós que entrais, abandonai toda a esperança.” Dante Alighieri (Divina Comédia inscrição no portal do inferno)
“Eu vi meu pai fazendo xixi no restaurante, enquanto almoçava e nem percebeu. Vi minha mãe tomar suco na mamadeira. Meu pai estava de fraldas deitado na cama do hospital e nossos olhos traduziram o meu desespero e a vergonha dele.
Eu ouvi meu pai e minha mãe dizendo que não tinham filhos e perguntaram meu nome. Eu matei bichos imaginários na parede, conversei com fantasmas, segurei a mão do meu pai enquanto ele me perguntava o que estava acontecendo com ele, parecia bobo.
Eu dei comida na boca da minha mãe, porque ela não conseguia segurar o garfo. Eu ouvi minha mãe me pedindo para dar um tiro na testa dela, porque não aguentava mais esse inferno.
Eu corri de madrugada pelas ruas escuras do bairro à procura do meu pai, porque ele tinha fugido para trabalhar, às 2 horas da madrugada. Eu vi cada um morrer um pouco por dia e morri um pouco com eles. Eu ajoelhei no jardim e pedi para Deus levar nós duas.
Eu chorei no banheiro com o rádio ligado para ele não ouvir. Não dá para negar tudo que vivi. Não dá para ser a mesma pessoa de antes do Alzheimer. Sou melhor, mais forte, temporal é chuvisco e eu sei que posso lidar com qualquer coisa, porque eu desci ao inferno e voltei.
Como recomeçar e reconhecer essa nova pessoa que nasceu no lugar da antiga Míriam?” A Cura Ainda não sei quem é esse Eu e nem qual será a próxima coisa que vou perder. Alzheimer é a doença das perdas. Eles me deixaram e não consegui impedir isso.
Sinto a mão trêmula da minha mãe segurando a minha, na tentativa de acalmar meu coração assustado. Ainda tento alcançar aquele fio de barba teimoso, no canto da boca do meu pai. Mais do que perdão, amor, compreensão, sabedoria… o que nos realmente nos liberta é a Gratidão.
Como agradecer ao Inferno que o Alzheimer me arrastou? Porque quando me vi no meio do mar bravo e meu barco ameaçava afundar, consegui compreender o que eu precisava aprender com tudo isso.
Não era aplacar a fúria do mar, não foi para isso que fomos feitos, mas cuidar do barco e chegar à outra margem. Fomos feitos para a travessia e não para controlar o mar.” Míriam Morata – trecho de Alzheimer Assombro e Cura do Cuidador
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