Sobre o livro
Contar “causos” é um dom, um privilégio, uma arte que muitos tentam cultivar, mas nem todos conseguem. Há aqueles que fazem isso pela oralidade, pelo jeito todo especial de recriar e reviver fatos e acontecimentos, com aquela pitada picaresca que compete aos que nasceram para encantar as plateias.
Há outros que preferem a palavra escrita, que vão além dos “causos”, dos “ditos” e dos “acontecidos”, para deixar registrado em forma definitiva o retrato de uma realidade que poderia desaparecer sob a poeira do tempo. Quero crer que Joselito Nunes faz parte desse último grupo.
Quem pensa que o Sertão é apenas chapéu de couro, touceira de jurema preta, bicho solto na caatinga e embolador de coco, pensa pouco e pensa ruim.
Há sertanejos a quem Deus deu o dom do improviso e do repente, como os irmãos Lourival, Otacílio e Dimas – além de Pinto do Monteiro e do legendário Antônio Marinho, que seguiu os passos de Romano da Mãe d‘Agua e de Ugolino do Teixeira.
Há aboiadores, benzedeiras e curandeiros – há mulheres valentes que dão à luz em pé, há quem saiba de reza forte para tratar de uma “espinhela caída”. Há aquele que dá um boi para não entrar na briga, mas há também o outro que perde uma boiada para dela não sair.
Esse povo bravo, essa gente miúda e esquecida que se esconde sob o sol da caatinga, faz parte, desde há muito, do universo encantado de Joselito Nunes.
Até porque dessa gente ele faz parte – sertanejo do melhor quilate, nascido e criado na República Independente do Cariri paraibano, conterrâneo dos guerreiros do sol.
Para falar de sua terra e sua gente, para resgatar do anonimato cruel tanta coisa e tantos nomes, Zelito, como querem seus amigos, lança agora Sertão de Beiradeiro – Resgato Antes que Acabe, um retrato em quatro cores de uma região em branco e preto, onde o coração do povo sempre foi maior do que a pobreza que o cerca.
Tivessem outros essa mesma preocupação de Zelito – garimpando versos, causos, contos, lendas e legendas do vasto mundo sertanejo, o país haveria de conhecer melhor e com mais profundidade o Brasil real, aquele “Brasil brasileiro, sem mistura de estrangeiro, o Brasil nacional”, a que se referiu com tanta propriedade o grande Zé da Luz, cuja obra Zelito conhece melhor do que ninguém.
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