Sobre o livro
A importância de elementos como fama, riqueza, prosperidade, honra, lealdade e coragem, vinculados a personagens masculinos emblemáticos, se manifesta de forma muito evidente nas fontes escritas de todo o período da Inglaterra Anglo-Saxônica (c. 500 – 1066 d.C.).
Orgulhosas figuras masculinas, projeções ou construtos de um ideal de sociedade, são comumente interpretados como um elemento chave do mundo anglo-saxônico medieval.
Entretanto, entre as personagens de tais narrativas – a respeito dos feitos de corajosos guerreiros e homens santos destemidos encarando inimigos ferozes, monstros e mesmo o próprio Demônio – existe um número significativo de personagens femininas.
Neste contexto temos o poema “Judite”, que se encontra no mesmo manuscrito do famoso poema “Beowulf”.
No poema encontramos a descrição de como a personagem de Judite é inspirada pelo espírito de Deus a salvar seu povo do assédio do exército assírio ao decapitar o líder Holofernes enquanto esse dorme embriagado após a grande festa que ele proporciona a seus homens.
Com a morte de Holofernes a moral do exército assírio fica abalada, o que prenuncia sua derrota. Na reconstrução da história bíblica de Judite em inglês antigo, fica clara a influência da hermenêutica cristã e da interpretação patrística e dos modelos da hagiografia latina.
Um pouco diferente da narrativa bíblica original, a personagem de Judite é representada por uma mulher devota ao Senhor que lhe concede força espiritual através da qual ela consegue assassinar o terrível Holofernes – que é retratado com características monstruosas (muito mais em um sentido espiritual e moral do que exatamente físico) – e instigar os hebreus a atacar os assírios.
Temos então presente um forte aspecto religioso e que estaria aliado a elementos heroicos como a apologia a um caráter marcial intrínseco à narrativa, uma personagem que possui uma força (física e espiritual) além das limitações humanas, a ameaça de uma grande adversidade maligna e a lealdade incondicional para com a imagem do líder (neste caso o próprio Deus).
Isso torna o poema “Judite” uma obra muito importante para auxiliar na compreensão da figura feminina dentro do contexto social e religioso – no campo das ideias e da interpretação de tais símbolos e signos – na Inglaterra anglo-saxônica e também por ser uma obra única dentro do volume documental do período.
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