A Palavra Questionada Em Entrevistas Do Programa Roda Viva: O Ato De Fala Pergunta Como Instaurador De Identidades – Lilian Aparecida Arão

A Palavra Questionada Em Entrevistas Do Programa Roda Viva: O Ato De Fala Pergunta Como Instaurador De Identidades – Lilian Aparecida Arão
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Resumo:

O presente trabalho tem como objetivo empreender uma análise do ato de fala pergunta numa perspectiva discursiva interacional. A partir da integração entre a Teoria dos Atos de Fala; a Semiolingüística e o Interacionismo proposto por Marcel Burger; tivemos como objetivos específicos identificar a natureza desse ato; o tipo particular de ação que ele realiza; as restrições impostas às respostas; suas propriedades enunciativas bem como sua dimensão discursiva interacional. Outro propósito foi analisar a correlação pergunta/resposta; visando identificar o efeito do descompasso das intencionalidades entre elas. Como fonte de observação; o corpus selecionado para nossa análise se constituiu de transcrições de entrevistas de três personalidades do cenário político envolvidos num esquema de corrupção (Roberto Jefferson; José Dirceu e José Genoíno); veiculadas pelo programa Roda Viva; exibido pela Rede Cultura de televisão. Constituinte do gênero de informação midiática; a entrevista política se consubstancia como uma prática discursiva-social que visa atender aos apelos da vida cidadã; daí nosso interesse por ela. Além disso; cabe ressaltar que; por se tratar de discursos autênticos processados em tempo real; já que o programa é transmitido ao vivo; essa situação particular de interação teve a virtude de nos fornecer grandes unidades pragmáticas que nos permitiram evitar generalizações superficiais do fenômeno discursivo bem como nos fornecer dados mais precisos para a descrição da pergunta. Da observação dos parâmetros definidores da força diretiva da pergunta; constatamos que a direção de ajustamento mundo-palavra que ele implica refere-se à entrada do interlocutor na interação discursiva; ou seja; trata-se de um ato que incide sobre o interlocutor; fazendo-o agir em forma de linguagem; consubstanciando-se; assim; como o ato constitutivo da interação. Da relação entre a direcionalidade apontada pela pergunta e o fato de o interlocutor assumi-la ou não; revelada na resposta; constatamos quatro padrões diferentes de interação gerados a partir daí. A classificação desses padrões se deu pelo reconhecimento de que ato de fala pergunta se realiza como ato ilocucional; nos casos prototípicos; e que; quando a ele se adicionam outras intenções; ele serve de suporte para atos perlocucionais; Tendo em vista o gênero analisado; percebemos que a materialidade da interação aqui em tela impôs fortes restrições para a disposição psicossocial dos sujeitos envolvidos nessa prática de linguagem. Já que se tratava de uma interação transmitida ao vivo; tinha-se a presença virtual desse telespectador que representa a opinião pública tão cara aos políticos e às instâncias midiáticas. Assim; as instâncias de produção; aqui desdobradas em entrevistadores e entrevistados; e a instância de recepção; caracterizada pela audiência do programa; se achavam engajadas num processo de transação; no qual a primeira desempenhou o duplo papel de interpelador e testemunha do mundo; e a segunda; hipoteticamente; um papel reativo diante das trocas instauradas na e pela entrevista. Daí que tanto entrevistadores quanto entrevistados se mostraram fortemente engajados nos seus projetos de fala para suscitar interesse desse público; com fins de fazer saber; fazer pensar ou fazer sentir. Enfim; pudemos constatar que o ato de fala pergunta na situação discursiva aqui em análise; antes de ser um questionamento sobre um estado de coisas; configurou-se como uma implicatura para o sujeito; uma vez que a pergunta põe em questão o próprio sujeito; que busca; então; estabelecer uma coerência que assegurará a identidade por ele pretendida. Por outro lado; a pergunta é formulada tendo em vista o sujeito que é posto em questão; e; por meio dele; tudo o que lhe diz respeito; tudo o que o envolve. Dito de outra forma; a pergunta instaura identidades e ao interlocutor cabe reafirmá-las ou não. E ao público; cabe a função de decodificar esse simulacro da realidade exibido pelas mídias.

Detalhes:

  • Categoria: Teses e dissertações
  • Instituição: UFMG/ESTUDOS LINGÜÍSTICOS
  • Área de Conhecimento: LINGÜÍSTICA
  • Nível: Doutorado
  • Ano da Tese: 2008
  • Tamanho: 981.56 KB
  • Fonte: Portal Domínio Público

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