A Psiconeurologia do Diálogo: Do Conceito à Prática.

Por Sérgio Spritzer

Sobre o livro

A partir de certo momento de minha vida de professor universitário e mesmo em cursos e workshops, ao apresentar o projeto de ensino da disciplina ou curso, solicito a cada um dos participantes que apresentem seu projeto de aprendizagem.

Muitos estranham: “Não sabemos fazer um projeto de aprendizagem; o Sr. nos ajuda? Claro, respondi prontamente. Outros manifestaram sua contrariedade: “Ora Professor, cabe ao Sr. dizer o que o quer que a gente aprenda!”.

Desde os primeiros anos escolares estamos acostumados a nos derem pronto o que precisamos fazer. Não participamos da construção do projeto de conhecimento.

A nossa participação precisaria ser coativa, de iniciativa conjunta para podermos desenvolver um projeto de ensino/aprendizagem atendendo demandas de ambas as partes. A aprendizagem precisa ser relacional e dialógica (promover a busca ativa e compartilhada de conhecimento) para dar resultado de interesse comum. Infelizmente não somos criados assim.

A esmagadora maioria dos estudos a respeito da mente e do comportamento humano é realizada de forma unilateral, ou seja, uma pessoa estudando a outra ou outras, sem levar em conta as reciprocidades ali acontecendo. Estas alteram as condições iniciais

do estudo proposto. “Controlar as variáveis” engessa os resultados para encaixarem na forma como o projeto foi proposto. Engessando,

estanca o diálogo entre o observador e a observação.

Como consequência, apesar da enorme quantidade de estudos de mente, cérebro e comportamentos tomados como unilaterais, não como integrados entre si, pouco ainda sabemos como utilizar na prática da vida estas informações. Ficamos “de fora”, assistindo o que se passa, supostamente para ficarmos neutros e isentos, esquecendo que o modo como nos relacionamos com o que conhecemos influi no que é conhecido.

Nas últimas décadas tem tomado força um movimento orientado pelo chamado paradigma sistêmico e da complexidade relacional dos fatos, segundo o qual o observador influi na observação que ela realiza.

Tal como já se demonstra no campo da física nuclear, o modo como abordamos a “mente” faz com que “ela” se apresente em suas múltiplas formas, tal como se olhássemos um diamante: seu brilho varia de acordo com a direção do olhar e da incidência da luz.

Assim, o conceito de mente implica alguém que pensa e alguém que é pensado de tal modo que ambos estão implicados. Somos sistemas imersos em sistemas influenciando e sendo influenciados uns pelos outros, estejam nós e os outros num mesmo plano ou em diferentes planos.

Já não podemos considerar o estudioso como alheio que estuda ou quem ensina sem relação a quem aprende e assim por diante.

Ainda são raros os estudos da mente com foco nas interações humanas em suas múltiplas dimensões: intrapessoal, interpessoal, transpessoal e coletiva. Não basta simplesmente concordar que a mente humana é relacional. É preciso analisar como isso acontece e utilizar esse conhecimento para mudanças e desenvolvimento.

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